segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ela é boa de samba - Parte 2 - Carla Pepe

Ela é boa de samba - Parte 2
By Carla Pepe

O dia de samba que Soninha mais gostava eram os ensaios de Comunidade, era quando se sentia mais a vontade. Ela conhecia geral: da faxineira até o Presidente da Escola. Naquele dia, resolvera chegar cedo para ajudar o pessoal a arrumar a quadra, conversar com a galera da limpeza, da manutenção. Andava ensinando D. Elvira a ler romances. A senhora lia apenas seu nome e outras poucas palavras, mas tinha o desejo de ir além. Estava num bom humor daqueles, pois era libertador ensinar alguém a descobrir os versos. Liminha ficara de encontra-la na Quadra mais tarde.

Ela vestia um vestido curto de alcinha azul marinho, lingerie pink de renda, batom rosa, os cabelos pareciam ainda mais cacheados, sapatilha nos pés, pernas brilhando do creme de morango que passara. Estava linda, charmosa e cheirosa. O esquenta da bateria estava começando e Soninha já estava começando a aquecer os quadris. As mulatas da quadra não entendiam como a gorda amiga do Lima conseguia ser tão bem resolvida, desfilando os grossos braços no vestido de alcinhas. Precisavam confessar que tudo ficava ótimo nela, afinal ela tinha algo muito diferente: atitude. Nunca se importava com as celulites, estrias, tamanho do corpo. Havia nela sinais de que o que lhe importava era a si mesma.

Liminha vinha chegando no samba. Era um homem normal, nada extraordinário, moreno, relativamente baixo, corpo normal, no auge dos seus 40 anos. Era um rapaz trabalhador de uma indústria, filho mais velho de alguns irmãos. Conhecera Soninha no samba há uns anos atrás e sempre sentira algo pela volumosa morena, mas ela nem olhava para ele duas vezes, o tratava como amigo. E ele nunca ultrapassara essa barreira: ouvira todas as suas lamúrias, seus barracos, seus estresses, seus dramalhões. Naquele dia, ele chegou na quadra e logo viu a morena sambando com a cerveja na mão e o vestidinho no corpo. Ai que vontade de pegar a morena e leva-la dali para um lugar a sós e ficar com ela a noite toda para vira-la do avesso.

Quando ela avistou Liminha chegando na quadra, logo avançou em cima dele, dando-lhe um gostoso e apertado abraço. Não sabia o que tinha de diferente, mas dessa vez sentira tensão, um fogo subindo por entre as pernas, uma vontade de ficar ali abraçada com ele. Chegara a pensar em fazer coisas com Liminha que só Jesus para lhe salvar a alma. Devia estar mais carente do que imaginara, afinal ele era seu amigo, um dos melhores.  Não podia estar sentindo algo por ele. Mas ficaram ali, sambando e bebendo. Ela rebolava, se aproximava e foram assim noite toda. O rapaz já estava daquele jeito, na tensão. E a morena nem te ligo, só no samba e na cervejinha.

Enfim, o samba na quadra se encerrou e Liminha se ofereceu para levar a moça em casa. Ela tentou recusar, todavia ele insistiu e acabou acompanhando-a pelo caminho. No caminho para casa, sem que ela soubesse explicar como, ele puxa a morena e lhe dá um beijo vigoroso, um beijo louco, apressado, iminente, daqueles que a gente se pensar não faz, nem sente.

E ali mesmo, ficam os dois, perdidos numa noite de samba, suor e paixão. As mãos dele percorriam o corpo dela como se pudessem reconhecer o território. Ele tocava seus seios, apertava suas costas, enfiava a mão por baixo do seu vestido. Ela percorria o corpo dele, lhe agarrava o dorso. Suas bocas não conseguiam se soltar uma da outra, na pressa de se reconhecer e de se envolver. Eram uma química explosiva.

Soninha não conseguia pensar no que estava fazendo. Como seguiria aquela amizade? Como seria acordar no dia seguinte depois de ter dormindo com seu amigo? E agora?




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