segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ela é boa de samba - Carla Pepe


Ela é boa de samba - Parte 1 
By Carla Pepe

Ela acordou com o corpo cansado, a cabeça latejando e a memória da noite passada. O samba tinha sido fantástico. Amava sambar, a batida dos tamborins, os clima da quadra. Podia passar o dia inteiro trabalhando, estar moída que sempre teria um espaço nos pés para sambar. Era boa da cabeça e do pé. A única coisa que tinha sido chata foi ter visto Roque com outra mulher. Mas ele era passado. Ela realmente o tinha cuspido e enterrado no último samba. Tinha boas palavras para chama-lo mas preferia guarda-las. Eles tinham saído uma única vez e por terem ido para cama o canalha tinha espalhado para todo mundo que ela era vadia. Aff mil vezes.

Na verdade, ela era mulher liberta. eles tinham uma química, ela já tinha passado dos 38 anos, morava sozinha, se sustentava e era feliz. Para que ficar esperando o próximo encontro? Mas ele tinha que falar para todo mundo na quadra. E ainda espalhar que ela era liberal. Liberta e liberal para o boçal eram a mesma coisa. Ela ia colocar ele na sala de aula junto com seus alunos e lhe explicar algumas coisas. Na noite passada, até pensou em tirar satisfações mas Liminha, seu amigo, lhe parou. Disse que não valia a pena. O problema é que volta a meia alguém vinha lhe contar mais alguma coisa: até que ele tinha saído com ela por ter tara por gordinha. Filho da....Para não quebrar a cara de Roque, acabara bebendo um pouco demais da conta.

Soninha era professora de Português em duas escolas, morava sozinha, 38 anos, separada, independente. Passara da idade de quem precisava de companhia para ser feliz. Gostava sim de seus amigos, de estar com a família, de curtir os sobrinhos postiços. Mas homem não precisava não. De vez em quando, queria sair, fazer um sexo gostoso, se fossem compatíveis, se encontrariam várias vezes. Mas não queria romance, casamento de novo, namoro, essas coisas. Era uma mulher liberta dessas necessidades, sabia que a vida real era completamente diferente. Mas se tinha um coisa que odiava era ser humilhada e menosprezada. Sua vontade, ontem, tinha sido colocar Roque em seu devido lugar: no chão, diante de um bom soco. Mas Liminha, lhe segurou e foi seu companheiro de samba e de copo.

A professora sabia que era gorda, que tinha seios fartos, coxas grossas, era baixa, cabelo de cachos. Mas abusava do que lhe valorizava: decotes, saias curtas. Exagerava nas alças, nos batons coloridos, nos shortinhos. Seus cachos estavam sempre acima dos ombros, deixando a nuca exposta. Fazia exercícios diariamente, buscava se alimentar legal, mas gostava do seu corpo acima do peso. Não era gorda em excesso, mas também não tinha desejo de ser magra. Era simplesmente feliz do jeito que era. Ficava sempre ali na bendita manutenção.

Depois de pensar demais sobre ontem, Soninha, decidiu que era hora de levantar e seguir em frente. Hoje era dia de dar aulas, fazer seu treinamento e suas compras. Ela tomaria um analgésico porque tinha, pelo menos, 50 adolescentes esperando por ela.

E essa semana ainda queria sambar. E se Roque se metesse a besta, levaria o que merecia. Ah, levaria sim.





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