sábado, 14 de novembro de 2015

A Mulher do sobrado - Parte 1 - Carla Pepe


A mulher do sobrado - Parte 1
By Carla Pepe

Ela morava sozinha num sobradinho de dois quartos, numa rua simpática, onde todos se conheciam. Era um bairro pobre, de gente trabalhadora, cheio de pequenos comércios. Bia, tinha 42 anos e trabalhava por conta própria fazendo roupas em casa. Era uma mulher volumosa, baixinha, cabelos curtos, quase de menino. Tinha coxas grossas, seios grandes, pernas lisas lindas, quadris largos. Vestia-se com simplicidade, todavia sempre colorida. Tinha uma beleza simples, um sorriso claro, largo e um olhar fácil.

Suas criações eram vendidas pela as classes mais abastadas numa loja VIP de propriedade de uma velha patroa de sua mãe. A moça já tinha tido dois longos relacionamentos que não deram certo. Aprendera a viver bem sozinha, sua mão era uma grande e boa companheira. Era bem feliz assim. Sentia falta de alguém para conversar, para ver algum filme, mas quando isso apertava ligava para suas amigas e marcava uma programação.

Todos os dias descia, mantinha seu ritual: fazia sua caminhada, comprava seu pão e subia. Começava a desenhar, depois cortava os moldes e  lá ia o barulho da máquina de costura. Quando os modelos começavam a ganhar vida, pedia a uma amiga para servir de modelo. Suas roupas eram cheias de vida, coloridas, com brilhos e muita magia. Tinham alma. As vezes, para buscar inspiração abria uma garrafa de vinho tinto de boa safra e ficava ali bebericando e sentindo o doce aroma das uvas e o sopro de luz chegando. Nestes dias, passava a noite a desenhar.

Ela descia e o observava quase todos os dias, sempre sério, parecia que a vida lhe fora dura demais. Ele vendia flores, mas dificilmente havia um sorriso em seu rosto. Ela sempre comprava girassóis, flores do campo, violetas. Gostava da casa florida. As flores morriam logo, mas ela não se importava, tinha esperança de um dia brotariam e dariam novas flores. Ela sempre lhe cumprimentava com um sorriso largo no rosto e a voz repleta de alegria, mesmo nos dias mais áridos e nas noites mais solitárias.

Ele notava os olhos cansados dela, os dias em que ela passava mais tarde, em que a boca vinha sem batom e as mãos estavam cortadas pela tesoura. Era uma mulher forte, corpulenta, mas simpática, gentil, no entanto, já a vira se tornar bicho diante de injustiças. Usava sempre roupas coloridas e, pelo que ele sabia morava só, no sobrado da esquina. Comprava flores das mais diversas umas duas vezes por semanas. Ele a achava intrigante. Ela não fazia seu tipo, mas gostaria de ter algo com ela, talvez uma boa noite de sexo, mas tão somente isso. Nenhum relacionamento duradouro.

Naquele dia, ela tinha ido na floricultura e comprado girassóis, estava tão cansada, que acabara esquecendo os óculos de leitura. Ele sabia que ela iria precisar dos óculos. Quando chegou o final da tarde, ao fechar seu pequeno negócio, Ary se dirige ao sobrado e toca a campanhia. Bia surpresa pede ao moço sério da loja de flores para subir. Pela gentileza de ter achados seus óculos, ela lhe oferece um café e um bolo delicioso. Ele entra na casa, percebe o ambiente acolhedor e cheio de cores e flores. Ela o cumprimente meio constrangida e sem saber: se com aperto de mãos ou com beijo leve no rosto. Ao beija-lo de leve no rosto uma corrente de eletricidade passa entre eles e ele move o rosto. O que começa no canto da boca, termina com as bocas se tocando e um beijo eletrizante, sem precedentes ocorre. Mãos, bocas, corpos vão num movimento e o beijo vai se alongando sem que nenhum deles se dê conta do que esta acontecendo no sobrado antes tão solitário.

E agora Bia?







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