quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Um café duplo, por favor By Carla Pepe


Um café duplo, por favor - Parte 1 - Ele e Ela 
By Carla Pepe 


Ele era jovem, devia ter uns 30 anos, descolado, cabelos bem curtos, mochila nas costas, celular no bolso, fone nos ouvidos, aquele andar despreocupado.  De vez em quanto, ele mexia a cabeça como se acompanhasse o som da música nos ouvidos. Os dedos se moviam ágeis no celular respondendo aos apps modernos que tiram os olhos das pessoas do mundo. Olham apenas a tela, a luz, o app. Ele parecia trabalhar em alguma empresa: dessas que sugam a alma, a raiz das pessoas tornando-as zumbis-trabalhadores-escravos. Todos os dias ele entrava na cafeteria e pedia o mesmo café duplo, por favor.

Ela o observava todos os dias, quase sempre no mesmo horário. Tinha certa curiosidade pelas pessoas em geral. Talvez por ter se formado em antropologia: o ser humano sempre fora seu personagem principal. Mas aquele jovem em especial atraia sua atenção, sem que ela soubesse precisar porque. Ele era bem mais jovem que ela e diferente do perfil de homens que ela gostava. Ela já tinha passado dos 40 anos e sabia que estava longe de ser uma bela mulher. Tinha seios fartos, coxas grossas, lábios carnudos e cabelos curtos como de um menino. Talvez ele a lembrasse quem ela fora outrora: febril, ambiciosa, workaholic. Alguém que vira a vida passar por entre os dedos até que decidira largar tudo e abrir aquela cafeteria-livraria. E que volta e meia era usada como Sarau de Poesia.

Ele a via todos os dias na mesma mesa. Talvez isso explicasse porque passava por ali todos os dias para tomar café. Nem gostava tanto assim de café, mas adorava olhar para ela, de admirar suas feições e expressões. Seu sorriso era de parar o coração. Gostava muito de ver que ela o observava e que corava quando ele a pegava o observando. Algo nela o intrigava e ele não sabia precisamente o que era. Ela não fazia o seu perfil de mulher. Nunca se interessara por mulheres mais velhas, nem gordinhas. Sempre gostara das mulheres bem mais jovens, como as modelos de revistas: guardavam um certo frescor e firmeza. O que ele sabia é algo naquela mulher o cativava, não sabia precisar o que. Se era a boca, o sorrisco, os olhos, ou o conjunto. Só sabia que todos os dias parava ali para beber seu café e apreciar a vista.

Liz - era o nome dela -  estava fechando a cafetaria naquele dia pensando no jovem rapaz. Ele não saia de sua cabeça. E ela resolveu dar fim naqueles pensamentos. Talvez fosse hora de aceitar o convite de Danilo ou de Sergio para sair e passarem a noite juntos. Talvez fosse isso que estivesse faltando em sua vida : sexo sem compromisso, uns drinks e nada mais. Quando chegasse em casa ia ativar sua agenda novamente.  A noite prometia forte emoções.

Ela fechava a loja, distraída, pensando nas promessas da noite, sem perceber que alguém vinha em sua direção. Eles se esbarraram. Os livros que ela segurava voaram. O celular dele caiu do bolso. As mãos se tocaram. Os olhos se encontraram. O mundo parou por instantes. Olhando para ela ali, tudo que ele conseguiu dizer foi: "já fechou? eu queria um café, por favor.."





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