segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Sequestro - Carla Pepe


O Seqüestro 
By Carla Pepe

Eles se conheciam fazia algum tempo, mas era apenas um sentimento platônico. Afinal não tinham trocado mais do que poucas palavras no ônibus em que vinham para o trabalho. Mas se falavam por horas pelo aplicativo. Ela sentia que o conhecia como ninguém. Se pudesse conversaria com ele por horas e horas. Tinham trocado o número numa dessas festas do grupo do ônibus e, desde então, conversavam inbox. Trocavam apenas carícias nas mãos, como adolescentes dos anos 50.

Ele também sentia isso, queria lhe apresentar seus autores preferidos, seus filmes, sua trilha sonora. Mas não conseguia sequer dizer-lhe mais do que bom dia e tchau. Ela era um mulherão. Loirão, saltão, corpão, tudo nela era grandioso e mexia demais com ele. Sempre que ele tentava falar com ela suava frio do alto dos seus 1, 80 cm e a boca ficava seca e tremia. Ela lhe provocava isso, sentia empalidecer. O que ele teria a dizer pessoalmente a uma mulher daquelas?

Ela já estava perdendo a paciência com ele. Já tinha esgotado todas as suas artimanhas de sedução com ele. Já tinha jogado verde, vermelho, amarelo no aplicativo sobre se encontrarem pessoalmente do forma mais íntima. Até mesmo tomarem um café ou beberem uma taça de vinho num local mais reservado. Porém, ele parecia escorregadio, sempre tinha uma desculpa qualquer. Era um homem ocupado demais. Talvez fosse melhor cair fora. Mas ela sentia que eles tinham uma conexão, algo que ela não deveria desperdiçar. E agora o que fazer?

Naquele dia, ela colocou seu vestido vermelho de arrasar quarterão. Era justíssimo, tão justo que nem lingerie permitia que usasse. Salto alto, maquiagem arrasadora, olhar profundo, sorriso malicioso. Com passos decisivos, ela entrou no ônibus. Mandou no aplicativo: "quero vê-lo hoje." Ele respondeu  de forma irritada que estava cheio de reuniões e tarefas. O dia seria muito complicado para um encontro. No entanto, ela foi firme. "Quero vê-lo hoje, ou não nos falamos mais." Ele engoliu seco. Disse que ia ver, que talvez as quatro horas estivesse livre, mas não poderia demorar muito. Não poderia chegar em casa tarde. Ela respondeu que nesse horário o pegaria na porta de sua empresa. Ele engoliu mais seco ainda. Afe maria que mulher decidida.

Ela nem trabalhou naquele dia dado seu nervosismo. Quando deu perto do horário, começou o corre-corre porque o táxi agendado lhe deixou na mão. Ela tremeu nas bases quase pensou em desistir do que ia fazer com ele, tal estava sendo a dificuldade em conseguir um táxi. Até que um amigo lhe salvou com seu carro particular. Mando uma mensagem no aplicativo dele dizendo que descesse e fosse para esquina próxima ao seu trabalho e lhe esperasse. Ele quase desistiu também. Não sabia se ia ou se voltava. Nem sabia ao menos aonde estava indo com aquela mulher. Só sabia que quem brinca com fogo, sempre acaba se queimando.

Na esquina, ela o avistou, o amigo para o carro discretamente, ele entra. Ela pode notar suas mãos suadas, trêmulas. Eles seguem em silêncio, de mãos dadas, pernas próximas. No hotel, o amigo os deixa. Eles sobem em silêncio. Ela tira as taças de vinho, o vinho de boa safra, o chocolate. Ele continua trêmulo. Quando ele acha que vai começar a relaxar um pouco, ela tira o vestido, revelando o corpo completamente nu. O coração dele parece que vai sair do peito. Ele não sabe nem por onde começar. Toma a primeira taça de vinho de um só gole.

Ela caminha demoradamente até ele e com suas mãos procura o corpo dele. A respiração vai acelerando. Ele a pega e os dois explodem numa conexão absurda. As mãos dele pegam os seios dela, a bunda, o ventre. As mãos dela pegam o membro rígido dele. O final de tarde pega fogo entre eles. Todas as posições são permitidas e nada é simples naquele sequestro relâmpago de paixão. Ele a quer de todos os jeitos. Ela o quer de todas as formas. Ele a pega pelos cabelos e a poe de quatro, envolvendo-a num prazer máximo. Ela fica de joelho e suga seu liquido quente. O resgate é pago com luxúria e prazer.

No final da tarde, eles ficam na cama sem conseguir nada dizer, corpos suados, extasiados. Ela se levanta, se veste. Ele fica ali trêmulo, como quem quisesse entender a deusa com quem acabara de estar. Mas ela lhe diz que está aonde ele sabe que ela está. E segue cabeça erguida sabendo que amou intensamente e foi inteira e não metade de alguém.

No dia seguinte, ele recebe no aplicativo a musica "Como dois animais", do Alceu Valença:
Uma moça bonita
De olhar agateado
Deixou em pedaços
Meu coração
Uma onça pintada
E seu tiro certeiro
Deixou os meus nervos
De aço no chão...

Para bom entendedor, uma música basta...








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