sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Contos Urbanos - O Final

Carla Pepe 

Lá estava ela parada sem saber o que fazer frente ao espelho. Uma decisão a tomar. O terceiro elemento da equação a vinha pressionando a um encontro ardente cheio de promessas em que mãos, bocas e pernas se perdiam. O rapaz jeans desbotado-camisa-allstar nunca mais aparecera, mas seu coração teimava em lembrar dele até hoje. Ela sentia que eles tinham algo, uma conexão. E ela precisava fazer algo, antes de se deixar levar por aquele fogo, que agora ardia em seu interior. Ela se encheu de determinação e seguiu no seu plano. 

Naquele dia, ela se arrumou com minúcia, colocou sua lingerie de renda turqueza, uma saia preta justa que deixa suas coxas grossas delineadas, uma blusa com decote no entreabrir dos seios. Na boca uma batom cor de carmim e brincos dourados. Um brilho sedutor e diferente no olhar. Ela tinha o poder nas mãos e a estratégia na cabeça. Ela sairia do trabalho e ficaria na estação à espreita. Ela emitiu todas as boas energias ao universo para que o mesmo conspirasse a seu favor e fizesse o rapaz jeans desbotado-camisa-allstar aparecer. E o encostaria na parede do metrô-vagão-boiada. 

Dessa vez, ele não escaparia ao seu olhar, ao seu toque, ao café e a dizer-lhe se o que eles tinham era real e possível. Talvez ele tivesse alguém, ou não gostasse dela, ou quisesse apenas brincar com seu coração.  Ela não sabia dizer de onde vinha a coragem que brotava, só sabia dizer precisava daquela resposta para seguir em frente. Se a faísca que ela viu fosse efêmera, ela seguiria outros planos, com outros elementos se perderia em outros olhares. Seguiria o movimento do fluir da vida.  Se ele topasse encarar os olhares dantes trocados: ela toparia o café, o licor, o lençol, a noite, quem sabe, o amanhecer. 

Caminhando pela rua lentamente, vinha ele ouvindo sua playlist pensando em como faria para chegar perto da flor que desabrochou. Como voltar a ser, em igualdade de condições, o segundo elemento da equação? Naquele dia, sua esperança era, pelo menos,  inebriar-se em seu perfume de flor exótica. Ele a queria de uma forma tão livre e tão aberta que não saberia como expressar. Queria que ela fosse ela mesma e que fosse feliz. Faltava-lhe apenas a coragem de chegar perto, de se aproximar e falar-lhe as palavras mais doces e as mais eróticas. Queria tocar suas pétalas, acariciar sua nuca, beijar-lhe a boca até sugar-lhe a alma, pressionar-lhe o íntimo. Oh Deus como a desejava bela flor!!!

E assim, no corre-corre da estação movimentada, pessoas indo e vindo, quase sem querer eles se esbarraram. Os planos traçados foram jogados para o alto. Os dois, como que fantoches nas mãos  dos deuses, foram entregues ao destino. Ficaram ali imóveis sem conseguir dizer uma palavra, olhando um para o outro. E ele rapidamente, antes que a coragem surgida fosse logo embora, diz "desculpe pelo outro dia". Ela responde logo "não tem problema. o que acha de tomarmos um café agora?". Ele olha para ela e diz: "me desculpe o atrevimento, mas será que você toparia uma cerveja? ou algo assim? ". Ela sorri e lhe diz:" você sabia que os rapazes atrevidos são meus preferidos". E assim lá se foram os dois, lado a lado, as mãos já procurando uma a outra como se já conhecessem seus próprios caminhos.  Ele lhe sussurrou algo ao ouvido e ela sorriu, chegando a corar. O celular top 6 plus vibrou, ela pegou, desligou, colocou na bolsa e seguiu. A decisão estava tomada. Iria ser feliz!!!







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