quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Contos de uma cidade pequena - Parte 2 - Un, Deux, Trois
By Carla Pepe


Clotilde tinha resolvido que precisava se aproximar rapidamente de Marivando se quisesse logo amarrar o cabra. Sabia que ele tinha uma rotina: trabalhar no seu sítio durante a semana, beber sua cachaça na birosca aos sábados, às vezes visitar D. Vavá e ir a Missa aos domingos. Ela andava tomando conta do vaqueiro fazia algum tempo. Afinal, ele tinha mãos que pareciam pegar de jeito uma mulher e ela gostava disso. Tinha perdido o interesse pelos jovens rapazes que viviam lhe trazendo flores e bombons na prefeitura. Eram todos muito sem graça. Queria um homem que lhe fizesse arfar os seios mas que também pudesse lhe prometer casamento. Marivando era solteiro e tinha um corpo de fazer qualquer mulher olhar duas vezes. Era meio bronco, mas tinha traços fortes, isso ela reconhecia. O plano estava traçado. 


No outro canto da cidade, Laurinda estava se arrumando. Tinha comprado uma nova lingerie vermelha de renda, que acentuava seus seios fartos e suas coxas grossas. Tinha decidido se entregar aos arroubos da paixão que sentia por Marivando há anos. Era solteira e agora resolvera que se entregaria aquele homem com quem sonhava desde a sua adolescência mas não tinha coragem de se aproximar. Gostaria de ter noites quentes de paixão com aquele homem másculo, cujo olhar lhe despertava uma queimação que subia por entre as pernas e ia até o coração. Não queria casamento, já havia se acostumado com a sua vida de solteira. Suas próprias manias, sua casa, suas coisas. Queria mesmo era a paixão, a pulsão, a excitação. Suas esperanças eram que a lingerie, o vestido decotado preto, o sapato vermelho de salto lhe auxiliassem na execução de seu propósito. Respirou fundo, saiu de casa e seguiu em frente. 


No interior da birosca, Marivando tomava sua cachaça e comia uns bolinhos que a mulher do vizinho lhe dera em troca do leite das suas vacas. Ele se vestira com cuidado naquele dia: calça jeans, camisa de algodão, seu melhor chapéu, suas botas novas, colocara uma água de cheiro e limpara as unhas com cuidado. Tudo muito limpo e passado. Era um homem solteiro, mas gostava de se cuidar bem. Sabia que sua pele era curtida do sol por causa do tempo que passava cuidando da roça e do gado. Houve um tempo em que pensara em se casar, mas agora já se acostumara a vida de solteiro. E até gostava em não ter ninguém para dar-lhe as ordens. 


De repente, pareceu que todo ar do recinto se foi e o tempo parou, Laurinda acabava de entrar no boteco e ele nem imaginava porque. Ela estava de um jeito que ele nunca havia visto antes: um vestido justo que mal cabia ar. Pela alça ele via a renda vermelha. Ele nem sabia o que descrever, só sabia que se perderia facilmente naqueles lábios vermelhos e nos cabelos cacheados presos deixando a nuca aparecer. Como queria beijar-lhe a nuca. Ah mulher não sabia o que fazia com ele, nem o que lhe provocava. 


Laurinda tomada de coragem percebe o olhar de Marivando e segue para uma mesa vazia. Senta, cruza as pernas e pede uma cerveja. E fica ali bebericando sua cerveja. Em seguida, de forma quase ensaiada, se vira para Marivando e diz: "Oi Marivando, há quanto tempo. Vai me deixar beber sozinha?" Ele engole seco e os segundos parecem seculos. Marivando engole sua cachaça de um só gole e levanta. Vai até a mesa de Laurinda e diz: "Que faz aqui Laurinda? Perdida?". Respira fundo e sente o perfume inebriante. Olha para o decote do vestido e antevê o contorno dos seios. Sente seu corpo retesar. Jesus o que faria com aquela mulher! Como beberia qualquer coisa ao seu lado e depois seguiria em frente? 


Do outro lado da rua, Clotilde assistia a cena pensativa. Precisava agir rápido. Não tinha idéia que a professora-encalhada-séria de Literatura tinha algum tipo de interesse no vaqueiro. E a danada era corajosa tinha que admitir. Mas agora a hora era de redefinir e realinhar o plano de conquistar Marivando. Afinal, tinha agora uma oponente. O trio estava formado. 


Segue a parte 3






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