domingo, 19 de junho de 2016

Conto de Abandono - Carla Pepe

Conto de Abandono
By Carla Pepe

Ela não entendeu porque ele foi embora. Só sabia que naquele dia de uma hora para outra, ele tinha partido. Não havia mais roupa no armário, sapatos na prateleira, câmera fotográfica na escrivaninha, jóias ou bens de valor. O que lhe restara foi apenas seu cheiro no travesseiro e nas lágrimas derramadas no sofá. Ficou ali parada querendo entender o porquê: será que ele voltava, a que horas, quando. Não sabia dizer por quanto tempo. Tudo pareceu pesar demais, mas era preciso seguir. E ela seguiu seu rumo em tons de cinza. O colorido da vida parecia ter ido junto com ele. Até seu sono não era mais o mesmo. Queria tanto entender o porque ele tinha partido: talvez tivesse sido o café fraco, o bolo solado, a cor da parede desbotada, até mesmo seu tom de voz grave.

A morena seguiu diferente de antes, mais brava, sem tempo para risos, para brincadeiras, sem calma. Queria mesmo era que a vida passasse depressa para ver se o ponto final de sua história chegava logo. Teve projetos, sonhos, construções. Ela era linda, mas se escondia, porque aquele abandono lhe roubara seu bem mais precioso. Ele tinha levado consigo naquela mala repleta de roupas e pertences, seu amor. Eles se encontraram algumas vezes na vida, ele parecia não reconhecer o que lhe fizera. As discussões giravam sempre em torno de dinheiro, mas ela queria mesmo era compreender o incompreensível. Ás vezes, é preciso apenas se colocar em movimento. E foi o que ela fez.

Um belo dia, ela resolveu dar um mergulho bem profundo, quase morreu, mas renasceu. Ao ressurgir, encontrou perdido, num canto qualquer da casa, seu amor. Ela, então, fez-se inteira novamente. Entrou no armário e procurou seus melhores trajes: vestiu-se de sorriso, calçou um olhar sedutor, pingou gotas do seu melhor encanto e partiu para vida. Tinha sido ferida, mas agora sabia que podia ser atrevida, pois era moça aguerrida.

E foi assim, dançando pelos cantos, o viu naquela noite. Ela o olhou  - seu pai - o homem que a abandonou anos atrás. Ela não sabia se na rua ele morava ou se apenas ali passava. Mas mirou-lhe o semblante para ver se ele reconhecia a menina distante. Por um segundo, pareceu que ela lhe era familiar, parecia a menina que ele deixara no solar. A imagem da tal cena, ele espantou, afinal eram erros que lhe assombravam o pensamento, seu doutor. A moça seguiu buscando as lágrimas espantar, afinal tem certas coisas que na vida não se consegue interpretar, lhe restava apenas seguir, acreditando na sua capacidade de amar.



Postar um comentário